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Blog do Ilgo

A arte de perder uma Copa do Mundo

No começo de junho de 2006, enumerei dez razões que me levaram a afirmar, peremptoriamente – gosto dessa palavra, ela me lembra um momento importante da política gaúcha – que o Brasil perderia a Copa do Mundo daquele ano, na Alemanha.

É claro que a situação hoje é diferente – nem tanto -, mas algumas coisas me lembram o que aconteceu nos dias que antecederam à estreia do Brasil.

Percebo muito ufanismo de todos, a começar pelos meios de comunicação. Parreira, personagem decisivo em 2006, não se conteve dias desses: “Chegou o campeão”.

Quem percebeu isso e parece estar tomando providências é o técnico Felipão. Confiram em http://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,felipao-tenta-resgatar-o-espirito-da-copa-das-confederacoes,1505287

Mas duvido que o Brasil perca. Logo adiante tem eleição e é importante demais um título mundial na nossa casa. Um fracasso terá reflexo nas urnas.

Agora, se o apito não ajudar, o Brasil não ganha.

Mas vamos ao que escrevi, resumidamente, há oito anos no meu blog anterior, criado no início daquele ano mesmo, o WWW.ilgowink.zip.net:

1 – PARREIRA

O treinador é Carlos Alberto Parreira. Esta frase já diz tudo, mas não são poucos os fãs de Parreira. Por isso, comento: é um treinador da mesmice, do futebol chato, que não estimula a criatividade e abafa os talentos.

O seu limite de ousadia são as telas que ele pinta – tem alguém que as compre?

Foi campeão do mundo nos Estados Unidos. E daí? Foi salvo pelo Taffarel e pela ruindade de um italiano. Tinha no grupo nada menos do que Romário no auge. E outros jogadores talentosos. Era um baita time, que nas mãos dele sofreu para vencer os Estados Unidos. Eu disse Estados Unidos. Sem contar que a arbitragem, como sempre, ajudou.

O Brasil jogou um futebol medíocre, marcou poucos gols, a maioria feita pelo Romário. O Brasil foi campeão apesar do Parreira. Enfim, Parreira é um chato, não é mesmo ‘mano’ (expressão que ele incorporou ao seu linguajar e que não cansa de repetir)?

Além disso, já deu o que tinha que dar.

2 – ZAGALO

Prestem atenção na figura dele, no que ele fala e como fala. Parece gagá, não? Por exemplo, outro dia, assim de graça, falou que Kaká será o grande nome da Copa. Pra que dizer isso? Quer provocar ciúme nos outros candidatos (R. Gaúcho e Ronaldo)? Quer provocar disputa interna? É que ele fala sem pensar, talvez porque já nem pense, se é que um dia pensou.

Depois, vem com a história do número 13. Além do mais, nunca foi um bom treinador. Ganhou a Copa de 70 meio sem querer, comandado pelos líderes do time, Gérson, Carlos Alberto e Pelé. E nos clubes como foi o Zagallo treinador? Nada, um zero.

TEXTO COLOCADO HOJE: fora isso: convocou Paulo Nunes para viajar com a Seleção, desfalcando o Grêmio em jogo decisivo pela Libertadores em 1997. IMPERDOÁVEL.

3 – SALTO ALTO

Se o otimismo exacerbado fosse apenas da torcida e da imprensa, que, de um modo geral está enlouquecida, sem qualquer senso crítico, não haveria problema.

A questão é que quase todos na Seleção estão assim, tipo levando de barbada. É só prestar atenção nas declarações de jogadores e do comando técnico. Tem gente mais preocupada em saber quem será o destaque da Copa, se o Kaká, se o Ronaldinho ou o Ronaldo, como se o hexa já estivesse garantido. O hexa ficou em segundo plano para algumas pessoas, tanto de dentro como de fora da Seleção. Não vou me estender nesse tópico, porque isso está evidente demais e nós sabemos que ninguém ganha um jogo antes dos 90 minutos.

4 – LEGIÃO ESTRANGEIRA –

A Seleção Brasileira é composta por jogadores que há bastante trabalham no exterior. Vivem a maior parte do tempo em outros países. A realidade brasileira é algo distante pra eles. Uma realidade da qual até preferem – com alguma razão – manter distância.

O Robinho, por exemplo, teve a mãe seqüestrada e apressou-se a sair daqui. O ‘mensalão’, a frustração que o PT causou aos seus milhões de eleitores, a farsa do Fome Zero, a força do PCC, a liberdade da Susanne. São coisas que não lhes dizem respeito.

Então, qual o real envolvimento desse pessoal com o Brasil, com o povo brasileiro e suas mazelas? Esses jogadores vão entrar em campo com algum espírito patriótico? Realmente imbuídos do que é representar o país em que nasceram?

Resumindo: essa Seleção Brasileira tem muito pouco de brasileira e nós sabemos que para ganhar uma Copa do Mundo a pátria precisa estar no coração e na ponta da chuteira de cada jogador, e não apenas de alguns.

5 – OS MILIONÁRIOS

Nunca o Brasil disputou uma Copa do Mundo com tanto jogador rico e milionário. Todos eles já ganharam mais dinheiro que o Pelé. E alguns superam o Maradona, que já é de uma época em que até cabeça-de-bagre tinha um salário de fazer inveja a deputado que recebeu o mensalão.

Então, com tanto dinheiro, com tanto prestígio e alguns com inúmeros troféus no armário, consagração mundial e tudo o mais, será que esse grupo da Seleção vai jogar com aquela disposição de quem, sedento,  disputa um copo de chope?

6 – FOGUEIRA DAS VAIDADES

A impressão que tenho, aqui de longe, mas atento às declarações e ao comportamento dos jogadores da Seleção, que existe uma disputa de beleza nos bastidores, algo disfarçado, mas que pode ser constatado a partir de uma observação mais atenta.

Alguém aí acredita que o Ronaldo não se sente incomodado por já não ser a maior atração da Seleção? E mais, sempre tem alguém falando que ele está gordo e até superado.

Primeiro, Ronaldinho, o Gaúcho, lhe roubou o nome. O Ronaldo antes era Ronaldinho. Ronaldo não falou nada. Depois, Ronaldinho ocupou seu espaço na Seleção e no coração dos torcedores. E Ronaldo continua sem falar nada. Ele se corrói por dentro, estou certo disso.

Ninguém mais invade o campo para abraçar Ronaldo. Os carinhos são todos para Ronaldinho. Não sobra nem para Kaká, menos ainda para Roberto Carlos e Adriano. Só dá Ronaldinho, que ainda por cima não se cansa de manter e estimular a imagem de bom moço, do cara simpático, sempre pronto para um sorriso, o que, no caso dele, é muito, muito, fácil. Ronaldinho é a Seleção. Ele, portanto, que resolva os jogos, devem pensar alguns de seus companheiros.

Vamos ver se ele resolve. Duvido.

7 – ESQUEMA TÁTICO

O treinador Parreira me lembra o Fernando Henrique Cardoso (‘esqueçam tudo o que escrevi’) e o presidente Lulla (esqueçam tudo o que prometi).

O sujeito que ganhou a Copa dos Estados Unidos com três volantes no meio de campo e que sempre preferiu esquemas mais fechados quer desmentir a sua biografia, que até é das melhores, como técnico.

Pois o Parreira começa a Copa com apenas um volante (Émerson), o que, somado ao fato de que seu time tem dois laterais veteranos, e uma zaga suspeita, é pedir para perder. Tem ainda o Zé Roberto, mas este ainda não conseguir definir bem qual é a dele.

Só sei que o Émerson, há uma semana, declarou o seguinte após um treino: “Eu fico mais atrás, quase sozinho. O Zé vai ao ataque e até ajuda bastante lá na frente, mas não é pela cabeça dele que ele faz isso e me deixa aqui na marcação”.

Ah, agora uma previsão: o Émerson, sozinho na frente da área, e como já não é um guri, ficará como um louco correndo de um lado para o outro. Vai chegar atrasado em algumas divididas. Vai levar cartão sobre cartão. Acho que no primeiro ou no segundo jogo será expulso.

Parreira aposta tudo na qualidade de seus meias delicados (nenhuma insinuação, apenas é que são jogadores de grande técnica, frágeis como marcadores) e na força dos dois touros na frente. O certo seria tirar um deles (Adriano ou Ronaldo) e colocar o Gilberto Silva.

É uma aposta e tanto, de alto risco. E eu não tenho dúvidas de que, mantida a atual formação, é uma aposta que Parreira já perdeu.

8 – DIDA E A DEFESA

A defesa é fraca e está ainda mais vulnerável no esquema armado por Parreira, conforme referi anteriormente. Os dois laterais têm experiência, mas já não contam com a mesma força, pique e velocidade de quatro anos atrás. Eles são problemas.

A zaga está muito exposta. Felipão, em 2002, fez de tudo para deixá-la bem protegida, porque conhece as deficiências de nossos zagueiros, em especial pelo alto. Lúcio, se tiver que sair muito para o combate, é um perigo. Juan me parece lento e calmo demais. Tem dificuldade na antecipação.

O maior perigo, porém, é Dida. Não confio nele. Está sempre aprontando. Ele não irá fugir à sua natureza.

9 – RIVALDO

Sim, Rivaldo, ou alguém como ele, faz falta. E vai fazer falta. Na Copa de 2002, na minha opinião, ele foi o melhor do Brasil. O Felipão, se não me engano, também pensa assim. Por mais que o RG e o Kaká joguem, ainda assim não têm as características básicas de um organizador de equipe. Juninho Pernambucano, sim, poderia fazer a função de Rivaldo, mas sem a mesma qualidade, a mesma chegada na frente.

Saudade de Rivaldo.

10 – RONALDINHO GAÚCHO

Por tudo que vi, li e ouvi até agora, por todo o circo que se armou em torno dele, por todo marketing que envolve tudo o que o RG faz, como a preocupação permanente de ser simpático, acessível a todos (foi o que mais apareceu pra dar entrevistas e se aproximou dos torcedores nessa preparação), acho que ele está mais preocupado com a sua imagem do que com qualquer outra coisa.

E isso não é de agora. Nos jogos finais do Barcelona, antes da Copa, ele ficou devendo futebol, ainda mais pelo grande futebol que tem. Pareceu mais preocupado em brilhar individualmente, fazer o lance genial que dele todos esperam a todo instante. RG parece ter incorporado a necessidade de provar que não apenas é o melhor do mundo como é o melhor de todos os tempos.

Ele quer desbancar o Pelé. E, enquanto pensar assim, RG será no máximo um Maradona, o que, para ele, já está de bom tamanho. RG será mais um na galeria dos que tentaram e não conseguiram destronar Pelé.

DEPOIS DE FECHAR A LISTA DOS DEZ MOTIVOS, ACRESCENTEI MAIS UM:

11 – Cometí um erro imperdoável ao esquecer o Ronaldo na lista dos motivos que levarão o Brasil e voltar mais cedo (se bem que a maioria não volta, fica lá pela Europa mesmo, onde vivem). Assim, o Ronaldo, tão importante na conquista do penta, passa a ser o motivo de número 11 (temos um time completo agora).