Batalha dos Aflitos: Reviva o confronto que colocou o Grêmio de volta à Série A do Campeonato Brasileiro há 15 anos

Jogo ficou marcado por tensão, expulsões e uma joia da base fazendo gol de título

A Batalha dos Aflitos foi um marco recente na história do Grêmio Football Porto Alegrense. A partida válida pela última rodada do quadrangular final da segunda divisão do Campeonato Brasileiro de 2005 foi um momento decisivo para a vida do clube que amargava um dos seus piores momentos nos mais de cem anos de existência.

O clube havia sido rebaixado pela primeira vez em sua história no ano anterior após uma péssima campanha e ter amargado a última colocação na competição. A equipe também foi a primeira das consideradas “gigantes” do futebol nacional a cair na Era dos pontos corridos. A segunda divisão seria decisiva e um divisor de águas para o tricolor.

Naquele ano, a competição tinha uma fórmula diferente da atual. A primeira fase tinha 22 times em que todos jogavam contra todos. Os oito melhores se classificavam para a segunda fase, quando as equipes eram divididas em dois grupos de quatro. Os dois melhores de cada grupo se classificavam para o quadrangular final. Assim, Grêmio, Náutico, Portuguesa e Santa Cruz se colocaram entre o candidatos à duas vagas para a Série A do Brasileirão de 2006.

As equipes se enfrentaram em turno e returno. Das quatro, apenas a Portuguesa chegava ao fim do quadrangular sem chances de classificação. Na última rodada, o Grêmio liderava a competição com nove pontos, o Santa Cruz vinha em seguida com sete, e o Náutico era o terceiro com seis. O Santa enfrentaria a Lusa em casa, enquanto o Timbu jogaria a vida em casa contra o Tricolor. No dia 25 de novembro de 2005, o Estádio dos Aflitos se preparou para uma guerra.

Os antecedentes da Batalha dos Aflitos

O Náutico é um dos clubes mais tradicionais do Nordeste, mas vivia anos de recuperação. Após cair para a segunda divisão em 1994, não conseguiu mais retornar à elite, e oscilou entre quedas para divisões inferiores e tentativas falhas de subir para a primeira. Em 2005, no entanto, a maior oportunidade desde a sua queda da Série A surgiu. Liderado pelo atacante e ídolo Kuki, a equipe contava com a sua torcida e o seu caldeirão para obter a vitória sobre o Grêmio.

Em Porto Alegre, no primeiro confronto do quadrangular, o jogadores do Náutico reclamaram de falta d’água nos vestiários da equipe, e resolveram recepcionar os atletas do Tricolor de maneira hostil. Todo o departamento de futebol do Grêmio teve de entrar nos Aflitos no meio da torcida pernambucana, ficando em um vestiário pequeno e recém-pintado, além de estarem trancados e sem acesso ao gramado. Nesse clima, os clubes foram a campo naquela tarde de sábado.

A Batalha dos Aflitos em campo

A Batalha dos Aflitos já estava desenhada fora de campo. Dentro, não se sabia como seria, mas o clima já estava instaurado. O Náutico foi a campo com um clássico esquema 4-4-2, com Rodolpho, Bruno Carvalho, Batata, Tuca e Ademar; Tozo, Cleisson, Danilo e David; Paulo Matos e Kuki. O Tricolor apostou no mesmo esquema, deixando Anderson, revelação do time, no banco. Mano Menezes mandou a campo Galatto, Patrício, Domingos, Pereira e Escalona; Nunes, Sandro Goiano, Marcelo Costa e Marcel; Lipatin e Ricardinho.

Em campo, Grêmio e Náutico mostravam mais nervosismo que bom futebol. As duas equipes tentavam sempre chegar, mas a bola sempre parava nos zagueiros ou ia para fora. A melhor chance do Tricolor foi em cobrança de Patrício, quando Lipatin tentou desviar para o gol, mas o zagueiro Batata desviou para fora, passando muito perto da trave esquerda. Por outro lado, sobrava disposição física e faltas que levaram o árbitro Djalma Beltrami a distribuir mais de três cartões amarelos só na primeira etapa.

Aos 31 minutos, uma bola foi alçada para a área gremista. O zagueiro Domingos conseguiu tirar em um primeiro momento, mas a bola acabou sobrando com o atacante Paulo Matos que tentou dominar, mas foi derrubado, pênalti para o Náutico e tensão para Grêmio e Santa Cruz, que perdia até o momento e poderia ser ultrapassado pelo Timbu. O lateral-direito Bruno Carvalho foi para a cobrança, Galatto ainda tentou desviar mas a bola acertou em cheio a trave e o jogo continuou zero a zero.

O jogo foi para o intervalo com um desenho diferente do começo da partida. O Santa Cruz virou o jogo no fim do primeiro tempo no Arruda, e agora o Náutico poderia tirar a vaga do Grêmio caso conseguisse um resultado com mais de um gol de diferença. E a segunda etapa demonstrou mais nervosismo. Os pernambucanos iam para o ataque com o incentivo da própria torcida. Aos 25 minutos, após um bate-rebate na área, Kuki desperdiçou a melhor chance da equipe no jogo, chutando por cima após estar sozinho na grande área.

No lance seguinte, o lateral Escalona foi expulso após cortar um lançamento com a mão. Um minuto depois, o jogo tomou proporções apoteóticas. Paulo Matos tentou cruzar uma bola na entrada da área gremista, mas a bola bateu no braço de Nunes e o árbitro acabou assinalando pênalti para o Náutico. Os jogadores do Grêmio alegaram que o membro do volante estava colado ao corpo. As reclamações, no entanto, excederam o permitido pela regra, e a confusão se instaurou. Três jogadores do tricolor foram expulsos e a Polícia Militar teve que entrar em campo. O volante Sandro Goiano, capitão da equipe, relatou o episódio em um especial sobre a Batalha dos Aflitos no globoesporte.com, em 2015:

“Eu fui para cima dele (juiz), dizendo com a “mão no peito”. A mão dele (Nunes), estava no corpo e não foi pênalti. O Patrício chegou dando peitaço, o Nunes ganhou vermelho, acharam que eu agredi, que eu chutei ele, é mentira.” (Sandro Goiano)

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Batalha dos Aflitos teve confusão de mais de 30 minutos e até Polícia em campo – Foto: Divulgação

Após vinte e cinco minutos de paralisação por conta da confusão, a partida pode ser reiniciada. O Grêmio ameaçou tirar o time de campo, mas o treinador Mano Menezes conseguiu acalmar os ânimos. Coube ao zagueiro Ademar fazer a cobrança para o Timbu. O jogador foi para a bola, bateu, e Galatto conseguiu fazer o impossível. O goleiro defendeu a bola e manteve o Tricolor vivo, mesmo com apenas sete jogadores em campo.

“Lembro certinho do momento do pênalti, da bola vindo em minha direção, eu conseguindo fazer a defesa, do título. Para mim está tudo muito vivo. A Batalha dos Aflitos, na minha carreira, é o maior título que eu tenho, minha maior defesa. Eu tinha que fazer o dobro porque era o time do meu coração, dos meus familiares.” (Galatto)

Após a defesa, dois lances tornaram a Batalha dos Aflitos um episódio ainda mais épico. O Grêmio conseguiu um contra-ataque e ligou Anderson na lateral-esquerda. O atacante tentou driblar o zagueiro Batata, sofreu a falta e ainda conseguiu que o jogador tomasse o segundo amarelo. Após a cobrança do lateral, Anderson foi em velocidade em direção à área, se livrou do primeiro defensor, passou pelo segundo e chutou. O goleiro ainda tentou defender, mas a bola passou e morreu no fundo das redes, abrindo o placar nos Aflitos e colocando o Tricolor de volta à elite do futebol nacional.

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Anderson, com 17 anos, comemora vitória na Batalha dos Aflitos – Foto: Foto: Diego Vara / CP Memória

Na época, Anderson ainda era apenas um jovem de 17 anos que havia surgido naquela temporada e não estava em melhores condições para o confronto. Mesmo assim, ele conseguiu ajudar o tricolor a fazer o gol da vitória do Grêmio. Com o resultado, além da classificação para a Série A, o clube garantiu o título da segunda divisão. Mais do que isso, o Tricolor sobreviveu a um momento em que uma derrota e a permanência na B poderia significar a falência do clube. O Imortal mostrou toda a sua grandeza e se reergueu, mas nada seria possível sem a vitória na Batalha dos Aflitos há 15 anos.